A sessão desta segunda-feira, 23, da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS tinha tudo para ser mais um depoimento protocolar. Não foi. Ingrid Pikinskeni Morais Santos, apontada pelo relator da CPMI como destinatária de mais de R$ 156 milhões desviados de aposentados e pensionistas, chegou munida de um habeas corpus do ministro Cristiano Zanin, do STF, garantindo seu direito de permanecer em silêncio — e saiu de maca, após passar mal no meio do depoimento.
O relator, deputado Alfredo Gaspar, do União-AL, não poupou palavras ao apresentar os números que cercam a empresária. “No meu tempo de menino, tinha O Homem de Seis Milhões de Dólares. Olha que bacana, a senhora é uma mulher de R$ 156 milhões, roubados de aposentados e pensionistas”, disse o parlamentar, em tom que misturou ironia e indignação. Segundo ele, as empresas ligadas a Ingrid e ao marido, Cícero Marcelino de Souza Santos — preso e apontado como operador do presidente da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares, a Conafer —, fazem parte de uma teia de lavagem de dinheiro e pagamento de propina que chegou a servidores do INSS de topo de carreira, incluindo esposas e filhas de funcionários.
Diante das perguntas, Ingrid adotou uma linha de defesa centrada no marido. Admitiu ser diretora das empresas, mas negou qualquer conhecimento sobre fraudes ou desvios. Tudo, segundo ela, era gerido por Cícero. “Em relação às empresas e transferências, eu não vou conseguir responder nada a vocês porque quem geria tudo isso era o meu esposo, que inclusive traiu a minha confiança quando a Polícia Federal bateu na minha porta acordando meus filhos”, afirmou. Ela disse ainda que, desde 2015, se dedicava exclusivamente à criação dos filhos do casal e que estar ali era “uma surpresa” com a qual nunca esperou se deparar.
Gaspar reconheceu que ela pode, de fato, não saber de nada — mas foi enfático ao dizer que isso não apaga o que os dados mostram. “A linha de pagamento de propina passa por Ingrid”, afirmou. O relator descreveu um esquema em que R$ 850 milhões saíram do sistema e R$ 154 milhões chegaram às empresas do casal, sendo usados para remunerar servidores envolvidos nas fraudes. Para ele, a burocracia brasileira foi construída para, nas suas palavras, “roubar com legalidade.”
No meio do depoimento, Ingrid passou mal e a sessão foi suspensa. Quando retomada, ela já não estava presente. A senadora Damares Alves, do Republicanos, presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, visitou a depoente no serviço médico e a encontrou chorando, olhando a foto dos filhos. “Não sei até onde há envolvimento dela, ou culpa, ou conivência”, disse Damares — mas ressaltou que “os bandidos colocaram famílias em risco.”
Gaspar encerrou o ponto com uma frase que resume o tom da CPMI: “O nosso objetivo maior, independentemente de quem seja, tem que responder por esse desvio bilionário que matou, fez sofrer e penalizou milhões de aposentados e pensionistas.” Para quem depende de uma aposentadoria para viver — e isso inclui milhões de brasileiros do interior, como os da região Serrana do ES —, o que está sendo apurado nessa comissão não é abstrato. É dinheiro que faltou na mesa.












