O conflito entre o Irã e as forças dos Estados Unidos e Israel deu um salto qualitativo nesta quarta-feira (4): pela primeira vez desde o início das hostilidades, um membro da Otan foi diretamente envolvido nas operações militares. A Turquia confirmou que baterias antiaéreas da aliança atlântica destruíram um míssil iraniano sobre o Mediterrâneo, após o projétil cruzar os espaços aéreos do Iraque e da Síria. Não houve vítimas ou feridos. O destino original do míssil permanece desconhecido.
O Ministério da Defesa turco descreveu a interceptação em nota oficial, sem entrar em detalhes sobre o tipo de armamento utilizado ou a localização exata do abate. A Reuters apurou que as circunstâncias do lançamento e o alvo pretendido pelo Irã seguem sem esclarecimento público.
O episódio imediatamente levantou a questão mais temida pelos aliados ocidentais: o Artigo 5º da Otan — a cláusula de defesa coletiva que trata um ataque a um membro como ataque a todos — seria acionado? O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, foi rápido em afastar essa possibilidade, afirmando não haver indícios de que a destruição do míssil configuraria tal hipótese. A declaração funcionou como válvula de alívio diplomático, mas não dissipou a tensão gerada pelo precedente.
Enquanto o episódio do míssil dominava os noticiários, dois países europeus se movimentavam nos bastidores do conflito. Portugal anunciou, em declaração do primeiro-ministro Luís Montenegro ao parlamento, a autorização condicional para que os Estados Unidos utilizem a base aérea nos Açores durante a campanha de bombardeamento ao Irã. Montenegro justificou a decisão com base em “necessidade” e na conformidade com o direito internacional, restringindo o uso a “fins defensivos” e “contra alvos militares”. Os Açores, pelas sua posição estratégica no Atlântico, já foram base de operações americanas em conflitos anteriores, incluindo a Guerra do Golfo.
A Espanha, por sua vez, inverteu sua posição em menos de 24 horas. Após o presidente Donald Trump sugerir um embargo comercial a Madri pela recusa em apoiar os ataques ao Irã, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, anunciou que o país concordou em cooperar com as forças armadas americanas. A rapidez da virada espanhola expôs a pressão econômica como instrumento de coerção diplomática neste conflito.
No plano da sucessão iraniana, o nome de Mojtaba Khamenei — filho do aiatolá Ali Khamenei, morto no último sábado — surgiu como principal candidato a assumir a liderança suprema do país. Questionada sobre o assunto, Leavitt afirmou que as agências de inteligência americanas “estão cientes e monitoram a informação”.
O caos no tráfego aéreo regional segue afetando civis. Com voos comerciais cancelados e espaços aéreos fechados em vários países, o Reino Unido e a França previam para esta quarta-feira os primeiros aviões de repatriação fretados pelos governos. Os Emirados Árabes Unidos abriram corredores especiais para permitir o retorno de seus cidadãos.
Do lado brasileiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou com o premier espanhol Pedro Sánchez sobre o conflito. Segundo o Palácio do Planalto, os dois líderes compartilharam o desejo de que a guerra chegue ao fim “com a maior brevidade possível” e que negociações de paz tenham início “sob o amparo do direito internacional”. Ambos reiteraram o compromisso com o multilateralismo como caminho para a paz e o desenvolvimento. Lula aceitou convite para visitar a Espanha no dia 17 de abril, participando no dia seguinte da quarta reunião de alto nível da iniciativa “Em Defesa da Democracia”, em Barcelona.
O conflito que começou com um ataque cirúrgico contra a liderança iraniana há menos de uma semana já envolve a Otan, base militares europeias, retaliações iranianas em múltiplos países e uma crise diplomática em aceleração. O mundo ainda não sabe para onde o próximo míssil se dirige.











