Vila Velha (ES) – O cenário político peruano caminha para um desfecho de incertezas. A contagem oficial das atas eleitorais, que chega a 96% do total, coloca Roberto Sánchez à frente na corrida presidencial. O candidato de esquerda alcançou 50,06% dos votos, deixando Keiko Fujimori, representante da direita, com 49,93%. A margem, que separa os dois por menos de 40 mil sufrágios, mantém o país em compasso de espera por uma definição que pode levar semanas.
A trajetória da apuração foi marcada por uma mudança de rumo drástica. Quando as primeiras urnas foram abertas no domingo, dia 7, a vantagem parecia sorrir para Fujimori. No entanto, conforme as contagens chegaram das zonas rurais — redutos onde o apoio à esquerda é tradicionalmente mais sólido —, a posição de Sánchez se consolidou. O quadro atual mostra uma disputa voto a voto, onde a Justiça Eleitoral já encaminhou cerca de mil atas para revisão.
Sánchez traz em seu histórico a experiência como ministro do governo de Pedro Castillo. Seu plano de governo toca em pontos nevrálgicos da economia peruana, como a proposta de taxação sobre grandes fortunas e uma profunda reestruturação nas concessões de mineração. O tema é sensível, dado que o país ocupa a posição de terceiro maior produtor de cobre no planeta. O mercado financeiro reagiu de imediato à virada: a moeda local e os índices acionários sentiram o baque assim que a liderança de Sánchez se tornou um fato numérico.
Do outro lado da disputa, Keiko Fujimori insiste na cautela. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que cumpre pena por violações aos direitos humanos, ela enfrenta seu quarto segundo turno consecutivo em uma trajetória política polarizada. Fujimori adotou uma postura de vigilância, afirmando que aguardará até o último voto ser processado antes de qualquer reconhecimento do resultado.
A tensão é o retrato de uma década marcada por instabilidade institucional. Quem emergir vencedor destas urnas assumirá a cadeira presidencial como o nono ocupante do cargo em dez anos. O histórico recente do Peru é uma sucessão ininterrupta de renúncias, destituições parlamentares e crises de governabilidade que tornam qualquer previsão política um exercício de risco.
Por enquanto, o clima nas ruas e nos centros de apuração é de vigília constante. A Justiça Eleitoral peruana segue com o trabalho minucioso de conferência das atas contestadas, enquanto os dois candidatos observam o relógio. Com uma diferença tão estreita, cada pequena remessa de votos que chega das regiões distantes tem o potencial de alterar o destino político do país.






