Vitória (ES) – Uma em cada cinco crianças e adolescentes no mundo vive com sobrepeso ou obesidade. São 419 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos afetadas por uma condição que, até pouco tempo atrás, era associada quase exclusivamente aos adultos. Os dados foram divulgados nesta terça-feira (4), Dia Mundial da Obesidade, pelo Atlas Mundial da Obesidade 2026, da Federação Mundial de Obesidade.
A projeção para 2040 é mais grave: o número deve saltar para 507 milhões. E as consequências não ficam para o futuro — já chegaram. A estimativa é que, até lá, 57,6 milhões de crianças apresentem sinais precoces de doença cardiovascular e 43,2 milhões já mostrem indícios de hipertensão.
No Brasil, o retrato é igualmente preocupante. São 6,6 milhões de crianças entre 5 e 9 anos com sobrepeso ou obesidade, número que sobe para 9,9 milhões na faixa dos 10 aos 19 anos, totalizando 16,5 milhões de crianças e adolescentes brasileiros vivendo com excesso de peso. As consequências já aparecem nos diagnósticos: em 2025, quase 1,4 milhão delas foram diagnosticadas com hipertensão atribuída ao índice de massa corporal, 572 mil com hiperglicemia, 1,8 milhão com triglicerídeos elevados e 4 milhões com doença hepática esteatótica metabólica — o acúmulo de gordura no fígado. Doenças de adulto, em corpos de crianças.
Para Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e presidente eleito da Federação Mundial de Obesidade para o biênio 2027-2028, os números confirmam uma tendência que já era previsível — e que o Brasil não conseguiu reverter. “Há dois anos, a gente já sabia que, em dez anos, metade das crianças e adolescentes no Brasil teria sobrepeso ou obesidade. Os dados estão se confirmando. Os índices estão crescendo, são alarmantes.”
Halpern aponta um fator estrutural que explica grande parte do avanço da obesidade infantil, especialmente nos países de renda média e baixa: a expansão do consumo de ultraprocessados. “A alimentação à base de alimentos pouco ricos nutricionalmente, ultraprocessados e baratos vem crescendo exponencialmente. Isso afeta mais crianças de classes socioeconômicas mais baixas.” O Brasil, nesse sentido, não é exceção — é exemplo.
O especialista rejeita a leitura de que a obesidade é um problema individual. “Temos que sair da ideia de que a obesidade é um problema individual e entender que, hoje, é também um problema socioeconômico”, afirmou. A frase que resume seu argumento é direta: “Se metade das crianças vai ter obesidade ou sobrepeso em alguns anos, não é problema dos outros, é problema de todos nós. Se não for o seu filho, vai ser o filho da sua irmã ou alguém muito próximo vivendo com isso.”
A Federação Mundial de Obesidade elenca um conjunto de medidas que considera essencial para reverter a curva: impostos sobre bebidas adoçadas, restrições ao marketing infantil em plataformas digitais e presenciais, padrões mais saudáveis de alimentação escolar, proteção ao aleitamento materno e integração da prevenção ao sistema de atenção primária à saúde. Halpern acrescenta um ponto que o atlas destacou com ênfase: o tratamento da obesidade materna como estratégia de prevenção. “Se a gente tratar a obesidade nas mães, pode ser uma forma de prevenir a obesidade dessas crianças no futuro.”
São 8 bilhões de razões para agir — uma para cada pessoa no planeta, como lembrou o próprio Halpern. O problema é que o mundo, por ora, ainda age aquém do necessário.













