A “Por que apenas em abril?”. O apoio não pode ser sazonal. Precisamos falar sobre o autismo nos outros 364 dias do ano para que a inclusão deixe de ser um evento e se torne um hábito.
Hoje é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Mas, para falarmos de consciência, precisamos primeiro falar de diversidade. O autismo não se manifesta da mesma forma para todos; ele é um espectro de cores, luzes e sombras. Enquanto alguns de nós navegamos pelo mundo com uma inteligência aguçada e dificuldades que muitos confundem com “distração”, outros enfrentam barreiras severas na fala, na autonomia e no processamento do mundo ao redor.
Existem diferentes níveis de suporte. Há o autista que dialoga, estuda e trabalha, mas que sofre com o “barulho” das segundas intenções. E há o autista — muitas vezes aquele menino que não consegue expressar em palavras o que sente — que vive em um grau de suporte mais alto. Para este, o mundo é um lugar incompreensível e, por vezes, assustador.
O grande nó, no entanto, não está apenas no diagnóstico, mas no encaixe. Muitas famílias vivem em um estado de vigília constante, sem saber como se conectar com o filho, e sem saber como o filho se conecta com o mundo. É uma via de mão dupla que dói:
- O autista na família: O sentimento de não pertencer, de ser uma peça de um quebra-cabeça que parece não ter lugar na mesa do jantar ou nas festas de Natal.
- A família com o autista: O esgotamento de pais e mães que não sabem como “tomar conta”, não por falta de amor, mas por falta de ferramentas e de uma sociedade que os acolha sem apontar o dedo.
Crescer sem saber o porquê de não entender uma piada de duplo sentido ou por que o barulho do mundo dói fisicamente é uma jornada solitária. Aos 52 anos, olho para trás e vejo o menino que era chamado de “lento” ou “sem noção” por não acompanhar as segundas intenções alheias, enquanto sua mente processava informações em uma velocidade extraordinária.
Sofri o abuso do preconceito travestido de brincadeira. Mas a mesma mente que se perdia na pressão de uma prova de arguição, encontrou refúgio na escrita, na psicologia e na fé. Superei o medo do olhar para me tornar alguém que olha nos olhos e enxerga a alma.
A sociedade tem o hábito de oferecer “pena”. A pena é paralisante; ela coloca o outro em um degrau abaixo. O que precisamos é de amor com consciência.
- Consciência para entender que o choro de uma criança autista no mercado não é falta de limite, é sobrecarga sensorial.
- Consciência para acolher famílias, em vez de questionar seus métodos.
- Consciência para entender que a inclusão real só acontece quando deixamos de “suportar” a presença do outro e passamos a celebrá-la.
Aqueles que estão em graus mais lentos de aprendizado ou que possuem dificuldades severas de comunicação precisam de algo além da nossa tolerância: eles precisam que nós aprendamos a língua deles. A inclusão real não acontece quando o autista “aprende a ser normal”, mas quando a família e a sociedade aprendem que existem outras formas de existir e de amar.
Não basta iluminar prédios de azul se não entendemos que o tempo deles é outro, que o silêncio é sagrado e que o amor não precisa de frases completas para ser real.
Minha vitória como missionário, psicólogo e escritor não é uma exceção à regra, é uma prova de potencial. Se eu, que vivi tanto tempo sem compreensão, pude florescer, imagine o que uma criança hoje pode alcançar se for acolhida desde o primeiro dia.
Que o azul deste 2 de abril não seja apenas uma cor, mas um compromisso. Que a empatia seja o nosso projeto de vida e que, em maio, junho e sempre, possamos construir um mundo onde ninguém precise “se adaptar” para ser amado.
“Que o amor seja com consciência. Que o apoio seja constante. E que nenhuma família se sinta sozinha na tarefa de amar o que, para muitos, ainda é um mistério. ”











