Imagine um auditório com mais de cinco mil pessoas. Cadeiras ocupadas, vozes misturadas, expectativa no ar. O tema da noite não é política, economia ou tecnologia. É sexo. E todo mundo quer falar.
Essa cena pode parecer improvável — mas talvez seja exatamente o que falta. Numa sociedade ainda atravessada por estereótipos e tabus, o sexo segue sendo um dos assuntos mais presentes na vida das pessoas e, ao mesmo tempo, um dos menos discutidos com seriedade, cuidado e informação. Todos fazem. Poucos falam. E essa lacuna tem um preço.
O sexo é, antes de tudo, uma experiência humana. Vai muito além da procriação: é expressão de intimidade, de afeto, de desejo e de comunicação entre pessoas. Reduzir essa dimensão a algo mecânico, escondido ou envergonhado é empobrecer algo que faz parte da vida de praticamente todo ser humano. Falar sobre sexo com abertura não é falta de pudor — é um ato de cuidado consigo mesmo e com os outros.
O ponto de partida de qualquer conversa honesta sobre o tema é a sexualidade. Não existe um único jeito de vivê-la. A sexualidade é um espectro amplo, que vai da heterossexualidade à assexualidade, passando por inúmeras formas de orientação, identidade e expressão. Reconhecer essa diversidade não é apenas um gesto de respeito — é uma condição para que cada pessoa possa se entender e se relacionar de forma autêntica, sem precisar caber em moldes que não são seus.
Entender o próprio corpo é outro pilar fundamental. O sexo é uma experiência sensorial complexa, que envolve visão, tato, olfato, paladar e audição. Quando as pessoas desconhecem seus próprios processos físicos — o que é normal, o que não é, o que sente bem e o que não sente — ficam mais vulneráveis a situações que poderiam ser evitadas com informação básica. Conhecer o corpo não é luxo. É saúde.
É aqui que entra a educação sexual — e sua ausência ainda cobra um preço alto. Quando bem feita, ela não estimula a prática sexual precoce ou irresponsável, como alguns temem. Pelo contrário: ela capacita as pessoas a fazerem escolhas conscientes sobre contraceptivos, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, limites e consentimento. Especialmente para jovens do interior, onde o acesso a profissionais de saúde especializados é mais restrito, a educação sexual pode ser a diferença entre uma vivência saudável e uma situação de risco.
E por último — mas talvez seja o mais importante de tudo — a comunicação. Falar abertamente sobre desejos, medos e limitações com a pessoa com quem se compartilha a intimidade não é mera formalidade. É o que constrói respeito mútuo, aprofunda a conexão emocional e previne situações de desconforto ou desrespeito. Relacionamentos onde o sexo é um assunto proibido entre os próprios parceiros raramente são relacionamentos saudáveis.
Cada pessoa tem seu próprio ritmo, sua própria história e seu próprio jeito de se relacionar com o corpo e com o desejo. Não existe um padrão certo. O que existe é a necessidade de que cada um possa percorrer esse caminho com informação, respeito e liberdade — sem julgamento e sem vergonha de perguntar.
O sexo tem muitas camadas. Descortiná-las, com cuidado e seriedade, é o primeiro passo para que a conversa deixe de ser tabu e se torne o que sempre deveria ter sido: educação.






