Serra (ES) – O cenário das unidades de terapia intensiva (UTIs) no Brasil apresenta um abismo de qualidade entre o setor público e o privado, revelando que a expansão numérica de leitos, por si só, não resolve as falhas estruturais do atendimento a pacientes críticos. A conclusão parte de um inquérito nacional que ouviu 2.338 médicos atuantes na alta complexidade, levantando preocupações sobre como a infraestrutura, o fornecimento de insumos e a qualificação das equipes variam drasticamente conforme o vínculo do serviço.
As notas positivas conferidas aos serviços particulares chegam a ser o dobro das registradas no Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto as avaliações negativas nas unidades públicas superam em até quatro vezes as do segmento privado. Os profissionais avaliaram quesitos fundamentais, como a disponibilidade de medicamentos, a presença de especialistas e a aplicação de protocolos clínicos, em uma escala de zero a cinco.
A disparidade é alarmante quando se observa a disponibilidade de fármacos essenciais: apenas 22,7% dos médicos no SUS classificam a oferta como totalmente adequada, ao passo que, no sistema privado, esse índice atinge 57,7%. Em contrapartida, a insatisfação com a falta de medicamentos na rede pública alcança 16,1% dos profissionais, um percentual significativamente superior aos 3,8% reportados no setor de planos de saúde.
A escassez de leitos e a fragilidade dos protocolos de conduta clínica seguem a mesma lógica. Cerca de um terço dos entrevistados considera a disponibilidade de vagas no SUS ruim, enquanto apenas 7,7% dos médicos em hospitais privados apontam o mesmo problema. A exceção à regra de desigualdade está concentrada nas tarefas administrativas, que, segundo os relatos, geram um volume de sobrecarga burocrática similar, independentemente da rede em que o médico atua.
O levantamento detalha ainda a lacuna na formação das equipes. Enquanto quase 40% dos profissionais no setor privado conferem nota máxima à presença de especialistas, esse número cai para 23% nas unidades públicas. Quando o assunto é a especialização de enfermeiros em terapia intensiva, a percepção negativa atinge 37,2% no SUS, evidenciando uma dificuldade maior na retenção ou contratação de mão de obra qualificada para o atendimento intensivo estatal.
Diante desse quadro, que impacta diretamente a rotina de mais de 43 mil leitos de UTI em todo o território nacional, a estratégia para os próximos meses envolve levar o diagnóstico a gestores e autoridades de controle. O objetivo é pressionar por políticas públicas que priorizem a qualificação e o aporte de recursos nas unidades existentes, deslocando o foco da mera abertura de novas vagas para a garantia de uma assistência efetiva, segura e digna para os pacientes.












