Antes de rirmos das nossas próprias contradições diárias, vale fazer uma pausa necessária. Entramos em Outubro Rosa, um mês que estampa vitrines e redes sociais com tons leves, mas traz no fundo um recado de sobrevivência profunda e urgente.
Para além dos laços e slogans clichês, o Outubro Rosa nos lembra da força avassaladora e discreta da mulher. Em meio à batalha diária do lar, do trabalho, das mil e uma jornadas e obrigações que não tiram folga, existe uma tendência humana, e dolorosamente feminina, de deixar o próprio cuidado sempre para depois. É a casa para arrumar, a meta para bater, a família para sustentar, a agenda de todos para organizar… e o próprio corpo ficando em segundo plano.
O ato de tocar-se, de conhecer a si mesma diante do espelho, muitas vezes vem acompanhado de um medo silencioso do que se pode encontrar. Mas o diagnóstico precoce salva vidas. Olhar para si não é egoísmo; é preservação. Que tenhamos, enquanto companheiros, maridos, filhos e amigas, a sensibilidade de oferecer apoio mútuo, braço forte e escuta atenta. Cuidar de quem cuida de todo mundo é o verdadeiro sentido desta causa.
E já que sobrevivemos ao início do mês, falemos de ontem: 12 de outubro, Dia das Crianças.
Que saudade da época em que a maior conquista tecnológica do domingo era conseguir prender um pedaço de palha de aço (o glorioso Bombril) na ponta da antena da TV para sintonizar o programa do Silvio Santos sem chuvisco! Jogávamos bola de meia ou de sacola na rua até o pé rasgar, descíamos o morro num carrinho de rolimã feito com restos de madeira e voltávamos para casa com o joelho ralado e a certeza de que o merthiolate ia arder mais que o tombo.
Hoje, a infância virou gourmet. O menino de sete anos não sabe o que é um pique-bandeira, mas edita vídeo em 4K, domina algoritmos e tem conta em banco digital. Às vezes a gente olha e pensa: “Nossa, como essa geração é inteligente! ”. Mas basta tirar o Wi-Fi por dez minutos para ver o pânico nos olhos do ser humano. A mente, que devia estar voando ao ar livre, ficou presa no feed. A folha de papel e o lápis deram lugar à tela. É a evolução… ou a perda do encanto da poeira no dedo do pé.
Para deixar a rotina ainda mais emocionante, o clima decidiu brincar com a nossa sanidade. Outubro deveria ser a estação das flores, uma primavera amena e bucólica. Mas aqui no Espírito Santo, e acredito eu, no Brasil inteiro, a sensação é de que abriram a porta do centro da Terra.
Semana passada estávamos todos estocando casacos; hoje, a saída para o escritório de manhã parece uma expedição pelo deserto do Saara. A busca por um cômodo com ar-condicionado virou uma questão de segurança nacional. As pessoas não andam na rua, elas correm de sombra em sombra como se estivessem num jogo de esquiva. A ida à praia não é mais lazer, é estratégia de sobrevivência contra a combustão espontânea.
Aí o calendário avança e o brasileiro, em toda a sua criatividade, já se prepara para o Halloween do fim do mês. Importamos a festa dos Estados Unidos, mas adaptamos com jeitinho nativo.
Convenhamos: bruxa de chapéu e zumbi de cinema não assustam ninguém por aqui. Os nossos monstros de verdade são bem diferentes:
- O boleto com vencimento na segunda-feira de manhã;
- A bateria do celular em 1% quando você precisa mostrar o QR code do ingresso ou do transporte;
- A mensagem do chefe visualizada às 18h01 sem resposta;
- A fake news que o parente envia no grupo da família com letras garrafais;
- A briga política de quem se degladia por candidato como se fosse clássico de futebol em ano eleitoral, esquecendo que no fim do dia o churrasco de domingo continua custando o mesmo preço.
Calma… O Panetone Já Chegou!
Para coroar essa maratona psicológica, o cérebro aciona o alerta de pânico: 2026 já acabou.
Se você piscou, o ano passou.
E a prova incontestável disso não é o calendário, é a prateleira do supermercado: em pleno outubro, entre uma caixa de sabão em pó e outra, lá estão eles, empilhados e soberanos, os panetones.
Bate aquele cansaço coletivo. A lista de metas que você fez no Réveillon continua intacta, intocada, sorrindo para você. A corrida para fechar os relatórios antes do Natal já começou, e a sensação constante é de que o tempo colocou o cronômetro no modo 2x.
Se você se identificou com pelo menos três itens dessa lista, fique tranquilo: você não está sozinho.
Respire fundo, tome uma água gelada (se achar um lugar com ar-condicionado refresque-se) e lembre-se de cuidar de si mesmo. Afinal, sobrevivendo a outubro, o Papai Noel já está logo ali na esquina.












