La Paz, Bolívia – O vice-presidente da Bolívia, Edmand Lara, utilizou as redes sociais nesta quinta-feira (2) para denunciar o que classificou como uma manobra orquestrada pelo governo do presidente Rodrigo Paz para levá-lo à prisão. Atualmente em viagem à Espanha, Lara alegou ter recebido alertas de membros da Polícia Boliviana sobre uma suposta ordem do coronel Marcelo Ferrufino para a fabricação de um processo falso contra ele. Segundo o vice-presidente, a motivação seria o silenciamento de sua postura crítica, que se intensificou desde o seu rompimento político com o Executivo logo no início da gestão.
A denúncia de Lara ocorre em um momento de acirrada tensão institucional na Bolívia, apenas 48 horas após a prisão do procurador-geral da República, Roger Mariaca. O governo Paz acusa Mariaca de vínculos com o narcotráfico. O procurador, por sua vez, comandava investigações complexas envolvendo o operador digital argentino Fernando Cerimedo, que serviu como assessor tanto para o governo boliviano quanto para a administração do presidente argentino Javier Milei, mantendo conexões próximas com alas conservadoras sob influência de Donald Trump.
O vice-presidente tem demandado explicações transparentes sobre os procedimentos jurídicos que resultaram na captura de Mariaca, questionando a legalidade da medida. Em sua nota pública, Lara enfatizou que, diante das pressões e dos avisos recebidos de dentro do próprio governo, teme pela sua integridade física e segurança. O governo de Rodrigo Paz não forneceu esclarecimentos sobre as alegações de Lara até o momento.
Especialistas observam que a ruptura política entre Lara e Paz possui raízes profundas. A pesquisadora Alina Ribeiro, doutoranda em ciência política pela Universidade de São Paulo, aponta que o vice-presidente vinha contestando abertamente o papel exercido por Cerimedo no governo boliviano. Lara argumentava que o assessor possuía um poder desproporcional, atuando além de funções técnicas e exercendo influência direta sobre ministros e decisões de gabinete. A defesa de Cerimedo refuta as acusações, caracterizando o operador como alvo de perseguição política.
A crise ganhou novos contornos no Poder Legislativo. O vice-presidente, que detém prerrogativas parlamentares, havia convocado uma sessão para a próxima terça-feira (5) com o objetivo de discutir denúncias feitas por autoridades dos Estados Unidos contra integrantes do governo boliviano. Contudo, o presidente do Senado, Diego Ávila, antecipou a reunião para esta sexta-feira (2) e restringiu a pauta exclusivamente à prisão de Roger Mariaca, alteração que provocou críticas severas de Lara.
A detenção do procurador-geral recebeu respaldo público direto dos Estados Unidos. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, declarou apoio firme à operação do governo Paz, vinculando a prisão ao Escudo das Américas, iniciativa liderada por Donald Trump que reúne 15 países. O bloco sustenta que a medida visa combater o narcoterrorismo na região. Analistas internacionais, contudo, ponderam que a coalizão também serve aos interesses estratégicos da Casa Branca na disputa comercial com a China, buscando consolidar influência econômica e política sobre a América Latina sob a justificativa de proteção da governança democrática.










