Washington, Estados Unidos – A dívida pública dos Estados Unidos atingiu um marco histórico inédito, ultrapassando a barreira dos US$ 40 trilhões. O avanço, que representa o dobro do volume registrado em 2017, é atribuído a uma combinação de fatores estruturais e conjunturais: a redução de impostos voltada aos estratos mais ricos da população, o peso da inflação exacerbada por conflitos no Oriente Médio e as tarifas de importação impostas pela atual gestão da Casa Branca. O crescimento foi acelerado a ponto de superar em anos as projeções iniciais do Escritório de Orçamento do Congresso, que esperava alcançar esse patamar apenas em 2027.
O custo para manter essa engrenagem financeira também atingiu níveis preocupantes. Os gastos apenas com os juros da dívida alcançaram US$ 1,1 trilhão, mais que o dobro do registrado em 2021, quando o valor era de US$ 419 bilhões. Paralelamente, o orçamento militar permanece elevado, próximo a US$ 1 trilhão. De acordo com analistas, o chamado “risco Trump” — marcado por políticas comerciais agressivas e conflitos tarifários, como o recente impasse com o Canadá — gera incertezas que pressionam os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano.
Embora o número seja expressivo, economistas como Pedro Paulo Zahluth Bastos, do Instituto de Economia da Unicamp, afastam o temor de insolvência. O argumento principal reside no fato de que os Estados Unidos emitem a própria moeda e detêm o dólar como a principal reserva global. Em cenários de instabilidade, o Federal Reserve pode atuar como comprador de última instância, expandindo seu balanço para estabilizar o mercado, como ocorreu durante a pandemia de 2020. A Secretaria do Tesouro norte-americana, inclusive, já anunciou a intensificação de suas operações de recompra de títulos, prevendo dobrar o volume para US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro.
Pedro Faria, economista e professor associado à UFMG, reforça que o valor nominal da dívida isoladamente não reflete a capacidade de pagamento do país. O cenário atual, segundo ele, é reflexo de uma tendência observada em diversas economias desenvolvidas desde 2008. Contudo, o impacto dessa política fiscal é sentido além das fronteiras americanas. A situação fiscal dos EUA atua como um vetor de pressão sobre as taxas de juros em mercados emergentes, incluindo o Brasil, dificultando a flexibilização da política monetária interna.
O debate político central gira em torno da arrecadação. Enquanto a carga tributária americana gira em torno de 25% do PIB — abaixo da média de 34% da OCDE —, os cortes de impostos implementados para o topo da pirâmide reduziram a receita governamental. Em 2025, novas medidas tributárias aumentaram a previsão de déficit em US$ 4,7 trilhões na próxima década, enquanto recortes na saúde somaram US$ 1 trilhão no mesmo período. Para especialistas, a dívida recorde é menos um problema de gastos excessivos e mais um sintoma de uma crescente concentração de renda, onde a arrecadação sobre lucros caiu significativamente enquanto o custo da dívida beneficia os detentores de ativos financeiros.
Por fim, a preocupação real não reside no tamanho da dívida, mas na confiança institucional. O uso de tarifas como ferramenta de chantagem política e a percepção de instabilidade na política externa levam outros países, como China e Brasil, a reduzirem gradualmente o estoque de papéis do Tesouro americano. Embora o dólar ainda domine 57% das reservas globais, o mercado observa com atenção se as diretrizes de Washington não acabarão por erodir os pilares que tornaram os títulos americanos o ativo mais seguro do planeta por décadas.









