São Paulo (SP) – O Brasil corre contra o tempo para cumprir a meta global de eliminar as hepatites virais até 2030, mas os caminhos para chegar lá esbarram em comportamentos sexuais recentes, subdiagnóstico histórico e profundas assimetrias regionais. Um amplo levantamento conduzido por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein desenhou o mais detalhado mapa dessas doenças no país ao compilar 200 estudos científicos publicados entre 2013 e 2024. A base de dados, que reúne registros de mais de 14,5 milhões de pessoas, revela um cenário complexo e desigual.
A hepatite A, classicamente associada à falta de saneamento básico e à transmissão por água ou alimentos contaminados, hoje se manifesta por vias antes pouco discutidas. O vírus encontrou um vetor eficiente na transmissão por contato oral-anal durante a atividade sexual. O fenômeno, inicialmente identificado entre homens que fazem sexo com homens, já se dispersou pela população geral que não está vacinada. Trata-se de um gargalo de imunização: a vacina gratuita na rede pública é voltada ao público infantil, deixando adultos desprotegidos — o que explica a alta de casos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste entre homens com mais de 18 anos. Nas populações vulneráveis, os números assustam. Enquanto a taxa de soroprevalência na população geral varia de 33,3% a 67,8%, ela chega a 88,1% entre detentos, 87,4% em imigrantes e 75,6% em pessoas transgênero.
A ameaça silenciosa dos tipos B e C
O perigo crônico mora nas hepatites B e C, principais causadoras de cirrose e câncer de fígado. Embora o contágio de mãe para filho durante o parto esteja sob relativo controle no país, o contato sexual desprotegido e o compartilhamento de agulhas mantêm os vírus em circulação. Para o tipo B, cuja prevalência geral fica entre 0% e 7,5% (com pico na região amazônica), a vacina é a principal arma preventiva. Para o tipo C, ainda não há imunizante, mas a medicina evoluiu a ponto de garantir mais de 95% de cura com tratamentos modernos — um salto monumental em relação às terapias agressivas do passado. Ainda assim, embora a taxa geral do vírus C varie de 0,04% a 2,2% na população, a prevalência chega a 36,9% entre usuários de drogas, evidenciando onde as campanhas de redução de danos falham.
O isolamento e o perigo do vírus Delta
Há também o drama invisível da hepatite D, restrita quase inteiramente a quem já carrega o vírus B. O vírus Delta é uma infecção grave que atinge de 0% a 23,9% da população na região amazônica, especialmente comunidades ribeirinhas isoladas de assistência médica. Trata-se de uma condição negligenciada por sua geografia e pelo perfil socioeconômico dos pacientes. Quando ocorre a coinfecção ou superinfecção pelo vírus Delta, a doença progride rapidamente para formas fulminantes ou crônicas graves, elevando drasticamente a mortalidade local.
Uma zoonose que vem do campo
Menos conhecida, a hepatite E introduz a necessidade de olhar para além da saúde humana. No Brasil, o vírus se comporta como uma zoonose, sendo transmitido principalmente por suínos. Não por acaso, o Sul do país, polo de criação de porcos, concentra os maiores índices de prevalência, variando de 0,9% a 59,4%. Geralmente benigna e assintomática, a doença reforça a urgência do conceito de saúde única, que integra o monitoramento de humanos e animais.
O estudo, publicado na revista científica PLOS ONE, integra o projeto de Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas. A iniciativa faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), aliança que une o Ministério da Saúde a sete hospitais filantrópicos de referência — incluindo o Einstein — para canalizar recursos de imunidade fiscal em pesquisas e melhorias de gestão que alimentem diretamente as políticas públicas do SUS.











