Jundiaí (SP) – O desafio científico era ambicioso e exigia visão de gente grande: criar um experimento viável para ser executado em condições de microgravidade. Beatriz Marques Herculano, Giovanna Machado Tasso, Lavínia Carboni Berti e Sara Lourenço Panico, alunas do 8º e 9º ano do Colégio Ser, em Jundiaí, levaram a proposta a sério. O esforço rendeu ao grupo o primeiro lugar no ISS Journey, marca histórica por ser a primeira vez que uma equipe do Brasil alcança o topo da competição.
A disputa foi acirrada. Mais de 70 times brasileiros submeteram suas ideias, mas apenas dez chegaram à reta final. O projeto vencedor, intitulado Análise de células mesenquimais no secretoma e do ducto mamário, foca em um dos temas mais críticos da oncologia moderna: o câncer de mama. A premissa das estudantes é investigar como a ausência de gravidade altera a comunicação celular, especificamente através do secretoma — o conjunto de substâncias que as células liberam para trocar informações entre si.
A lógica por trás da pesquisa é verificar se as mudanças impostas pelo ambiente espacial podem oferecer novas perspectivas ou caminhos para tratamentos da doença, que estatisticamente atinge uma em cada oito mulheres. O experimento será enviado à Estação Espacial Internacional (ISS) em uma missão agendada para o período entre setembro e outubro de 2026. Enquanto isso, um grupo de controle replicará o estudo aqui na Terra. A comparação entre o que acontece em órbita e o que ocorre no solo é o que permitirá, na prática, medir o impacto real da microgravidade nos processos biológicos.
O ISS Journey é uma iniciativa da International School, programa bilíngue da Arco Educação, em parceria com a The Michaelis Foundation. O programa busca estreitar a relação entre estudantes e a ciência espacial, forçando os jovens a encarar problemas científicos reais que possuem potencial de gerar contribuições acadêmicas genuínas. Durante todo o processo, as alunas contaram com a mentoria de um comitê científico, culminando na apresentação durante o Science Days, onde foram avaliadas por especialistas da área.
Como parte da premiação, o quarteto viveu uma experiência que poucos cientistas experimentam cedo na carreira. No final de junho, elas participaram de uma imersão no Kennedy Space Center, nos Estados Unidos. Lá, o contato com astronautas e engenheiros do setor aeroespacial serviu para dar dimensão ao feito que ultrapassa as salas de aula de Jundiaí. O trabalho agora carrega o peso de representar a ciência brasileira em um cenário global, provando que o ambiente acadêmico escolar pode ser o ponto de partida para investigações de relevância mundial.












