Catia La Mar, Venezuela – A terra tremeu com uma força que a Venezuela não sentia há quase cem anos. Em apenas sessenta segundos, no último dia 24, dois abalos sísmicos de magnitude 7,2 e 7,5 devastaram a costa norte do país. O rastro de destruição física imediata — que reduziu a escombros um terço dos prédios de Catia La Mar, no estado de La Guaira — agora dá lugar a uma crise silenciosa e muito mais dolorosa: cerca de 680 mil crianças precisam urgentemente de ajuda humanitária para sobreviver aos próximos meses.
A rotina nas áreas afetadas virou um teste de sobrevivência. Hospitais nos estados de La Guaira, Carabobo, Aragua, Falcón e na própria capital, Caracas, operam muito além do limite de suas capacidades de atendimento. Falta água potável nas torneiras para milhares de famílias, e as alas de pediatria e maternidade enfrentam sérias restrições. Manuel Rodriguez Pumarol, porta-voz humanitário na região, relata um cenário de extrema precariedade, onde o básico deixou de existir da noite para o dia.
Infraestrutura escolar em colapso
O impacto sobre a educação também é profundo. O levantamento das equipes de campo aponta que 432 escolas sofreram danos estruturais severos — o que representa mais de um terço de todas as unidades escolares da região atingida. Enquanto as aulas seguem suspensas nos prédios condenados, as escolas que resistiram inteiras à força dos tremores mudaram de função: agora servem como abrigos improvisados para centenas de famílias que perderam suas casas.
A resposta imediata tenta mitigar a escassez. Uma primeira carga aérea com 20 toneladas de medicamentos e insumos médicos já pousou em solo venezuelano. Outro carregamento substancial, despachado de Copenhague, deve aterrissar nos próximos dias. Somados, os dois lotes têm capacidade para suprir as necessidades de saúde de 100 mil pessoas. O plano de emergência traçado visa alcançar, ao todo, 650 mil moradores atingidos, com foco prioritário em 234 mil menores de idade que necessitam de suporte nutricional, água limpa e saneamento básico.
Financiamento urgente e novos tremores
Manter essa engrenagem funcionando, contudo, exige recursos que o país não possui no momento. A estimativa é de que sejam necessários US$ 52 milhões para financiar toda a operação de socorro nos próximos meses. Até agora, apenas US$ 3,5 milhões foram liberados para custear as equipes de campo e os primeiros envios de suprimentos.
Para piorar o clima de tensão e instabilidade psicológica da população, a terra voltou a se mover nesta segunda-feira (29). Um novo abalo, desta vez de magnitude 4,6 na escala Richter, teve seu epicentro localizado na cidade de Carabelleda, também em La Guaira. O tremor foi forte o suficiente para ser sentido com clareza nos edifícios de Caracas, lembrando aos moradores que a crise provocada pelo desastre natural ainda está longe de um desfecho seguro.






