Cariacica (ES) – O mercado de café brasileiro enfrenta um horizonte de incertezas com a implementação do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento, conhecido pela sigla EUDR. O bloco europeu, principal destino de mais da metade da produção nacional — cerca de 51,2% em 2024 —, passará a exigir que exportadores comprovem, documentalmente, que seus grãos não foram cultivados em áreas desmatadas após dezembro de 2020. Sem essa chancela, o produto será barrado nas fronteiras europeias.
O alerta vem de um estudo recente conduzido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O levantamento destaca que, ao classificar o Brasil como um país de risco padrão, a Europa impõe um fardo burocrático severo. O impacto é desigual: enquanto grandes propriedades possuem estrutura para lidar com a exigência de rastreabilidade, micro e pequenos produtores encaram obstáculos técnicos e fundiários que ameaçam tirá-los do jogo.
Impacto além das xícaras
Embora o café seja a commodity mais exposta, o regulamento também abrange carne bovina, cacau, óleo de palma, borracha, soja e madeira. A economia brasileira, que tem 5,3% de suas exportações totais sob a mira dessa nova norma, agora se vê diante de um dilema: adaptar-se ou perder terreno. A entrada em vigor da medida foi postergada e deve ocorrer de forma escalonada. Grandes e médios produtores precisam se adequar até 30 de dezembro de 2026, enquanto os pequenos ganharam prazo até 30 de junho de 2027.
Especialistas observam que a iniciativa pode funcionar como um disfarce para o chamado protecionismo verde. Ao equiparar desmatamento legal e ilegal, a Europa não apenas impõe critérios ambientais legítimos, mas também cria uma barreira comercial não tarifária. O risco real, segundo as pesquisadoras Kethelyn Ferreira e Marta Castilho, é a concentração do mercado nas mãos de grandes players, que têm caixa para suportar os custos extras da burocracia, e a possível substituição de fornecedores brasileiros por países de risco mais baixo, como o Vietnã, que hoje ocupa a segunda posição como exportador para o bloco.
Janela de negociação
O adiamento das datas serve como uma trégua estratégica para o agronegócio. O governo e o setor produtivo têm em mãos a oportunidade de negociar o reconhecimento de mecanismos de monitoramento nacionais já existentes, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a Moratória da Soja. Esses sistemas, que já cruzam dados de localização e conformidade ambiental, seriam caminhos lógicos para atestar a procedência da safra brasileira sem a necessidade de criar estruturas do zero.
A dúvida que paira sobre o campo é se essas soluções técnicas bastarão para mitigar os impactos sociais da regulação. A sugestão das pesquisadoras é clara: o suporte europeu, via fundos de auxílio técnico e financeiro, deveria ser o próximo passo para garantir que a transição não sacrifique o pequeno agricultor no altar das novas políticas ambientais do Velho Mundo.










